Nos Jogos de Seul-1988, o doping de Ben Johnson e o sangue de Greg Louganis

Manhã da terça-feira 26 de setembro, a bordo de um dos barcos de imprensa nas águas da Baía de Suyong, no Mar do Japão. Uma centena de repórteres e fotógrafos olímpicos havia embarcado logo cedo para poder acompanhar mais de perto e com algum conforto as últimas regatas da série de sete que perfazem as provas de iatismo em cada classe de barco.

Em se tratando de competições de vela, “de perto” e “com conforto” é sempre relativo. Ainda mais três décadas atrás. Estávamos em Pusan, cidade litorânea da Coreia do Sul que abrigava a competição náutica dos XXIV Jogos Olímpicos, em 1988, e os barcos de imprensa mais se assemelhavam a arcas de Noé — até pela fauna que transportavam. Em vez de deslizar sobre as ondas, pareciam cavalgá-las e tinham menos assentos do que passageiros. Ficava-se de pé ou sentado no chão durante duas, três, quatro horas — dependendo dos humores do vento para acelerar ou paralisar as regatas.

O Brasil chegara à Olimpíada com uma esquadra variada: as equipes Torben Grael/Nelson Falcão na classe Star e Lars Grael/Clinio Freitas na Tornado formavam a linha de frente mais promissora. Christoph Bregman/José Augusto Dias/José Paulo Dias na classe Soling, Alan Adler/Marcus Temke no Flying Dutchman e Jorge Zarif no Finn também se mantinham na disputa.

A vela, sempre ela, era o único dos 31 esportes cujas competições não se realizavam em Seul, num mesmo confortável raio de 3,5km de distância. Para se chegar a Pusan, a 400 km da capital, era preciso embarcar em um avião militar de janelas cegas, totalmente escuro, que sobrevoava uma região considerada de importância estratégica. Tudo bastante estranho e indicativo de que aquele país de economia emergente e em início de transição democrática tinha por vizinho a sempre imprevisível Coreia do Norte. A fronteira entre os dois irmãos inimigos ficava a uma distância da sede dos Jogos pouco maior do que a de uma maratona.

Naquela manhã al mare havia um incômodo adicional: o exibicionismo sonoro de um repórter italiano que urrava em um radiotransmissor para se comunicar com alguém em terra — naqueles tempos pré-celular, era o único a bordo a ter tal equipamento.

Em determinado momento, o dono da voz aumentou os decibéis e todos passamos a prestar atenção quando ele começou a exclamar, em italiano: “O quê? O quê? Não é verdade!”

Era vero. Triunfante com a notícia-bomba que daria à sua plateia cativa, eles nos repassou a notícia de que Ben Johnson, a estrela maior dos Jogos, tivera a medalha de ouro cassada por ter sido pego no doping e estava sendo expulso da Olimpíada.

Apesar da redação para a qual eu trabalhava ter outro jornalista a postos em Seul, Eurípedes Alcântara, para acompanhar essa hecatombe que deixou o resto da Olimpíada em segundo plano, raras vezes na profissão me senti tão inútil como naquele barco no Mar do Japão.

Dois dias antes eu assistira eletrizada às 46 passadas mais célebres daqueles Jogos. O atarracado Ben Johnson explodira do bloco de largada com o absurdo tempo de reação de 13 centésimos de segundo, respirara duas vezes ao longo dos 100 metros e cruzara a linha de chegada em inebriantes 9.97 segundos. Com o braço direito em triunfo e dedo em riste. Um deslumbre inesquecível.

Estraçalhara o recorde mundial da prova mais nobre e carismática dos Jogos. De quebra, triturara as pretensões do arquirrival Carl Lewis, o temido e marrento ganhador de quatro medalhas de ouro na edição anterior dos Jogos, cujo esquema de segurança em Seul somava quase 100 agentes. Vitória épica no duelo mais aguardado dos Jogos.

Também por isso a fraude, uma vez descoberta, teve proporções de acontecimento mundial: as revistas semanais de maior tiragem e capacidade industrial publicaram às pressas edições especiais para corrigir suas edições normais, em que Ben Johnson figurava como herói inconteste.

O atleta, que havia sido içado a “tesouro nacional” pela imprensa canadense por ter dado ao país o primeiro ouro nas pistas desde 1932, rapidamente passou a ser referido como “jamaicano de nascimento” — Johnson nascera no país de Usain Bolt e se mudara para o Canadá ainda criança.

De minha parte, desde então troquei o encanto pela desconfiança em relação à prova dos 100 metros rasos (e o esporte em geral), o que tem me poupado de desilusões maiores. Hoje, por exemplo, resta um único velocista entre os 10 mais rápidos da História a nunca ter testado positivo ou nunca ter admitido que tomou substâncias proibidas. Desde que a amostra de urina do jamaicano Nesta Carter colhida nos Jogos de Pequim-2008 (9.78s) e, retestada semanas atrás, acusou doping, tem o nome ainda limpo apenas o seu compatriota Bolt, o homem mais rápido da atualidade (9.58s). Até prova em contrário, dirão os mais cínicos.

Ainda assim, vale registrar aqui, e de propósito não no mesmo parágrafo, a bela participação do carioca Robson Caetano na fatídica prova — pela primeira vez um brasileiro competiu numa final olímpica de 100 metros. Sem falar na estupenda medalha de bronze que o velocista conquistaria dias depois em Seul, nos 200 metros.

Além dos 170 atletas que representaram o Brasil em 1988, outros 9.411 esportistas de 159 países passaram por duríssimas seletivas para poder participar dos primeiros Jogos quase completos, após as duas edições anteriores mutiladas pelo boicote dos Estados Unidos, União Soviética e respectivos blocos aliados.

A delegação americana, sozinha, era tão pantagruélica — 645 atletas, 189 dirigentes e equipes de apoio — que levou os organizadores da cerimônia inaugural a sugerir que dois terços não desfilassem por economia de tempo. A sugestão foi recusada, até porque a festa de abertura é a única chance de todo atleta ainda se sentir em igualdade de condições com os demais. Uma vez iniciadas as competições, o ar fica mais rarefeito.

Mesmo entre os que já se encontram no Olimpo, contudo, há os que conseguem aumentar de estatura diante de obstáculos que derrubariam seus pares. Em Seul ocorreu um desses memoráveis encontros de um atleta excepcional com seu destino.

O americano Greg Louganis já era o melhor do mundo em saltos ornamentais quando desembarcou no aeroporto de Kempo. Duas medalhas de ouro em Los Angeles (plataforma e trampolim) e inédita nota 10 dos sete juízes no Mundial de 1982.

Embora sem precisar cobrir essa modalidade, eu havia decidido assistir, a cada nova olimpíada, as competições de um esporte fora da minha pauta. Não por obrigação profissional, portanto, mas por curiosidade. Em 1988 optei por saltos ornamentais. Em Pequim-2008 seria tênis de mesa, é claro. Em Londres, hipismo.

Era o quinto salto da série classificatória da prova de trampolim. Louganis posicionou-se de costas na ponta do equipamento de 3 metros de altura e tomou impulso para o duplo mortal. Mas algo deu errado no voo, e sua cabeça raspou a beirada da tábua antes de o corpo cair na piscina sem a leveza do campeão que vencera 19 competições consecutivas nos anos anteriores.

Aflita, a arquibancada só respirou aliviada quando o atleta emergiu na superfície d’água, nadou até a borda por meios próprios e teve as manchas de sangue da têmpora enxugadas pelo técnico. No vestiário, Louganis levou cinco pontos provisórios e, passada meia hora, com o público ainda temeroso, posicionou-se novamente de costas no trampolim para o último salto a que tinha direito. Tirou a nota máxima do dia. Em seguida foi levado a um hospital para receber pontos mais confiáveis. No dia seguinte, com um lado da cabeça raspado e um curativo à prova d’água, saltou para o ouro olímpico. Uma semana depois, também venceu a prova de plataforma.

O que o público viu e aplaudiu foi a parte mais fácil. O que só se soube anos mais tarde, através do próprio atleta, é que Louganis desembarcara em Seul com um segredo de morte compartilhado apenas com seu treinador e um punhado de gente: ele era portador do vírus HIV, viria a desenvolver Aids e precisava tomar a droga AZT a cada quatro horas sem levantar suspeita em seus companheiros de alojamento.

Difícil imaginar alguém conseguir o foco necessário para competir e vencer num esporte tão arriscado numa situação de pressão tão corrosiva. Naqueles idos de 1988 o preconceito contra portadores do vírus ainda era horrendo, e Louganis ficou aterrorizado com a hipótese de ter contaminado a água na qual mergulhara após a batida de cabeça, ou ter infectado os médicos que lhe suturaram a ferida. (A estes ele depois confidenciou seu segredo, e eles puderam se certificar de estarem soronegativos).

Também tenho lembrança da melancolia de Ricardo Prado sentado na arquibancada do monumental complexo aquático Chamsil. O mais extraordinário, esforçado e talentoso nadador de sua geração, Pradinho, então com 23 anos de idade, talvez pudesse ainda estar competindo na piscina à sua frente. Mas se aposentara depois dos Jogos de Los Angeles, de onde saiu com uma medalha de prata, cansado de bater cabeça com os dirigentes do esporte nacional. Em compensação, assistiu à linda vitória do húngaro (e cego de um olho) Tamás Darnyi na prova em que fora soberano — os 400m medley. Também testemunhou a conquista da primeira medalha de natação por um negro, Anthony Nesty, do Suriname, país vizinho do Brasil que à época dispunha de uma única piscina olímpica (Nesty estudava e treinava numa universidade americana).

Paralelamente, o judoca Aurélio Miguel, paulista da categoria meio-pesado, deu trabalho não apenas a seu adversário alemão ocidental na disputa pelo ouro, como a quem teve de aprender correndo o que era um kumikata, um chui, um yuko ou um shido. Primeiro campeão olímpico da história do judô brasileiro, o atleta de 24 anos encantou a todos no ginásio Chanchung com sua naturalidade. Diante de microfones e câmeras de tevê do mundo inteiro ele agradeceu a vitória, entre outros, ao patrocínio de uma certa Casa de Pneus Fernandes, que dificilmente imaginou algum dia receber publicidade tão global.

Quem sentiu o quanto pesa uma palavra de campeão olímpico e pagou alto por não medir as palavras foi Joaquim Cruz, medalha de ouro em Los Angeles e uma das estrelas do atletismo mais assediadas nos Jogos.

Quatro dias depois de conquistar a prata na prova dos 800m, vencida pelo queniano Paul Ereng, Joaquim se preparava para disputar a primeira série das semifinais dos 1.500 metros. Telefonou à namorada Mary, que ficara nos Estados Unidos, para receber o costumeiro “boa sorte”. Soube então que a emissora noticiosa CNN estava transmitindo repetidos flashes de uma polêmica entrevista que ele dera à TV Globo dias antes, na qual levantara dúvidas sobre a maior celebridade americana das pistas em Seul: Florence Griffith-Joyner, ou, simplesmente, FloJo. Joaquim sugerira o que toda a família olímpica murmurava baixinho, longe de um microfone: que a exuberante atleta era movida a doping.

Foi uma bomba. O brasileiro, que morava e estudava nos Estados Unidos e convivia o ano inteiro com os atletas olímpicos americanos, percebeu o efeito tóxico de suas declarações. Sem condições de focar na corrida, desistiu de tentar a segunda medalha olímpica pouco antes de os competidores se alinharem para a largada e sumiu. Primeiro, voltou para a vila dos atletas, com seu técnico, Luís Alberto de Oliveira, depois foi até o Hotel Intercontinental que hospedava o Comitê Olímpico Americano para se explicar. Na infeliz entrevista em português, ele também havia feito comentários capengas sobre a grande dama do heptatlo, Jackie Joyner-Kersee. Joaquim jamais gostou de entrevistas, e à época seu português era inseguro.

Embora sem comprovação, a suspeita acompanhou FloJo até sua morte prematura. Ela era um furacão: vasta cabeleira esvoaçante, garras de leoa esmaltadas com as cores da bandeira americana, batom escarlate e adereços vistosos sobre a musculatura de halterofilista. Acompanhar a velocista atravessar a linha de chegada nos 100m e 200m, ambos com recorde mundial, terá valido a pena como espetáculo e reality show. Jamais se saberá se seu virtuosismo esportivo estava contaminado. A atleta aposentou-se depois dos Jogos de Seul, às vésperas da entrada em vigor da obrigatoriedade de testes antidoping fora de competição. Morreu aos 38 anos de asfixia decorrente de uma crise de epilepsia. Quase duas décadas, depois a grife Louboutin batizou de FloJo um de seus modelos de sapatos mais arrojados.

Voltando aos irmãos Torben e Lars Grael, disputando as últimas regatas dos Jogos nas raias C e D na Baía de Suyong. Desde que Preben Schmidt, o avô patriarca, ancorara suas raízes dinamarquesas em Niterói, na primeira metade do século XX, a vela brasileira nunca mais fora a mesma. À medida em que seus dois filhos gêmeos, Axel e Eric Schmidt, começaram a empilhar troféus para o Brasil nos anos 1960, o Rio Yacht Club fundado pelo velho Preben passou a seduzir levas de iatistas-mirins da região. Entre eles, os sobrinhos Grael, dos ilustres tios Schmidt. Torben havia estreado em Los Angeles com uma medalha de prata, Lars com um sétimo lugar. Ambos queriam mais em Seul.

Um conseguiu, o outro deixou escapulir. Os dois conquistaram a medalha de bronze num esporte ingrato para a televisão e tedioso para não iniciados, mas que só dá alegrias olímpicas ao país.

No fim das contas, o Brasil ficou na 24ª colocação entre os 160 países participantes em número de medalhas (um ouro, duas pratas, 3 bronzes).

Pelo menos na longa viagem de retorno — 13 horas de voo de Seul até Los Angeles, e outro tanto até São Paulo — a tribo de jornalistas havia deixado de se agoniar com uma questão que parecia crucial na ida: a do fuso horário e suas implicações mais materiais.

A bordo do avião que nos levou para a Coreia do Sul, a equipe de um jornal brasileiro aproveitara para repassar alguns aspectos da programação olímpica. Quando alguém levantou a questão do fuso e ficara claro que chegaríamos em Seul no mesmo dia e horário da partida de Los Angeles, ouviu-se a pergunta que suscitou o debate mais acalorado:

— Quer dizer que vamos receber uma diária a menos?

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