Fita cassete volta embalando antigos sucessos e novos projetos

O letreiro de plástico azul com letras brancas na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, traz o nome da loja, Marimba, e sua especialidade, “discos e fitas”. Mas o funcionário do balcão esclarece que a placa está desatualizada:

— Faz muito tempo que não se vende fita cassete aqui. Não sei nem dizer desde quando. Fita cassete acabou!

Há quem discorde. E há quem relance sucessos em fitas, há quem lance material exclusivo para o formato, há quem reabra espaço nas prateleiras e há até quem invista pesado no movimento. Após décadas, o Brasil tem novamente, em São Paulo, uma fábrica de K7 — apelido abreviado que o formato recebeu neste lado B do mundo.

O chamado auto-reverse da fita (termo que vem da rebobinagem automática dos gravadores) é mundial. E veio na esteira do vinil que, acima de qualquer discussão, está de volta.

Na última década, o vinil ressurgiu na coleção dos musicólogos, com argumentos estéticos (é um objeto bonito) e técnicos (dependendo do disco e do aparelhos envolvidos, o som é excelente). O mercado reparou: vinis novos nacionais custam R$ 100, importados passam fácil de R$ 200, relíquias chegam a quatro dígitos. A fitinha K7 tem lá sua beleza pop, um chiado que passa por charme e sai mais em conta, entre R$ 25 e R$ 35. Vale mais a pena por um suvenir que, sejamos sinceros, talvez nunca chegue a ser ouvido.

Débora Nogueira foi uma das que compraram e nunca ouviram. Como desculpa, a réplica da fita demo “Momma-Son” era um dos vários brindes dentro do box de 20 anos do álbum “Ten”, da banda Pearl Jam.

— É como se fosse um brinquedo de adulto, um suvenir da banda — diz Débora, cuja paixão pela banda deu “uma bela arrefecida” (ela acabou vendendo o box, com fita, vinil, poster, camiseta etc., por um bom preço).

Além do Pearl Jam, outros veteranos apostaram na fita. Mettallica e Oasis incluíram reproduções de fitas antigas em kits para colecionadores. O curioso é que artistas que chegaram ao sucesso bem depois da “era do cassete” resgatam antigos CDs em K7, caso dos pop-punks do Blink-182, da dupla She & Him (da atriz Zooey Deschanel) e dos performáticos Of Montreal (apesar do nome, americanos). Até o rapper Eminem entrou na onda: soltou mês passado a versão em cassete de “The Slim Shady LP” — apesar da contradição de LP ser um formato de vinil.

Em 2010, a banda Maria Gasolina lançou o a fita “Kesakassu”. É um dos maiores sucessos da banda finlandesa de música brasileira liderada por Lissu Lehtimaja, que viveu no Brasil e levou nosso som para seu país. Ela conta que o formato exótico casa com a banda:

— Ríamos pensando em mandar a fita para jornalistas, que não iam ter como escutar. Foi uma performance anarquista contra o comercialismo da indústria.

No Brasil, o movimento ficou restrito ao circuito alternativo, com destaque para a banda Mercenárias, que relançou seu primeiro disco, e o selo musical Dama da Noite, que pôs na roda fitas de artistas como Gattopardo e Front Violeta, geralmente vendidas em shows. Agora, um nome de peso se junta à brigada cassetista: Edgard Scandurra, lendário guitarrista da banda Ira! e vários e variados projetos. Ele vai lançar em fita seu último trabalho, “Est”, parceria com a cantora Silvia Tape. E arrisca o trocadilho bilíngue:

— A Tape vai sair em cassete!

Scandurra conta que viveu intensamente os anos dourados da K7, quando elaborava e distribuía entre amigos as fitas da série “As preferidas da Cunha Gago”, referência à rua que morava, em São Paulo. Não tinha mais tocador de fitas, mas, para ouvir a fita que vai lançar, comprou em um antiquário um modelo japonês.

— O cassete resgata o ritual de ouvir música por música, lado A e lado B, como o vinil, com vantagem de ser portátil Tem também uma beleza plástica que o CD nunca conseguiu ter, nem quando era novidade — diz Scandurra. — Para este trabalho, independente, acho que o formato mostra uma certa despretensão, a ideia de um produto autoral, sem excesso de produção.

O sebo Baratos da Ribeiro, que foi de Copacabana para Botafogo, tem fitas antigas e novas à venda. O proprietário, Mauricio Gouveia, analisa:

— É uma estratégia sagaz para cultivar o fã mais ardoroso. Acho que faz sentido para gravações precárias, que são lo-fi e a proposta é ser lo-fi mesmo.

Com cada vez mais gente atraída pela magnética da fita, já era hora de alguém ir além da reprodução artesanal. Coube a Fernando Lauletta e Luis Lopes, donos do FlapC4 Studio. Desde a aquisição de uma antiga copiadora de cassetes, o local é também uma fábrica de fitas em pleno bairro do Bixiga, em São Paulo. Diz Lauletta, fã de equipamentos antigos:

— Estamos em fase de testes e no aguardo de um material que veio da China, mas já lotados de encomendas.

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