Bethânia estreia programa ‘Poesia e prosa’ no canal Arte 1

RIO – Na infância em Santo Amaro, Maria Bethânia tinha poesia nas paredes de seu quarto. Eram versos que destacava entre os que ouvia dos poetas amigos de seu pai (“De dez amigos dele, oito eram poetas”, lembra), nos encontros em sua casa. Reuniões que nada tinham de graves, sérias — era a poesia como a vida, grandiosa e cotidiana. É assim que a palavra poética aparece em “Poesia e prosa com Maria Bethânia”, programa que estreia no dia 3 de julho, às 22h, no canal Arte 1 — a série de quatro episódios continua por mais três domingos, no mesmo horário.

— Eles riam muito — conta Bethânia, hoje aos 70 anos, referindo-se a seu pai e seus amigos poetas. — Lembro muito de meu pai falando poesia andando pelo corredor longo lá de casa. A palavra “poesia” rolava muito.

Essa perspectiva de vida e poesia entrelaçadas atravessa o programa, dirigido por Mônica Monteiro (a historiadora Heloisa Starling trabalhou na idealização e coordenação da pesquisa). No primeiro dos quatro episódios, dedicado a Clarice Lispector, Caetano Veloso lembra como chegou à obra da escritora — e como a apresentou à sua irmã. O próprio formato de “Poesia e prosa com Maria Bethânia” aponta nesse sentido, de trazer a palavra poética para perto da vida comum.

Em todos os episódios, há um convidado do universo da canção (mais popular, cotidiana) e um estudioso do personagem-tema do dia. Na estreia, além de Caetano, participa a professora da USP Nádia Gotlib, biógrafa de Clarice. No segundo programa, sobre Guimarães Rosa, estão o historiador Alberto da Costa e Silva e o compositor Paulo César Pinheiro. O terceiro episódio, dedicado a João Cabral de Melo Neto, tem o professor da UFMG Wander Miranda e Chico Buarque. O último da série, sobre Castro Alves, tem novamente Costa e Silva, além da professora Vânia Aparecida e de Jorge Mautner.

— Conheci o professor Alberto pelo livro que fez sobre Castro Alves. Adorei, achei que era um garoto (ele tem 85 anos) — diz a cantora. — Porque ele não só conhece, estudou profundamente, mas fala de um modo fácil, é uma delícia ouvi-lo. Gosto de aprender, todos ali foram chamados por isso. E partindo dessa ideia de que escolho um poema, um texto, não para estudar, mas para me emocionar. É como escolho repertório.

Os convidados ligados à música entraram pela proximidade com a obra do autor em questão — proximidades às vezes que escapam à obviedade. Como a relação entre Chico e João Cabral, que é sempre lembrada pelo fato de o compositor ter musicado os versos de “Morte e vida severina”, mas que tem outros marcos.

— Eu e Chico cantamos “Construção” no programa, uma canção que tem estrutura, ele mesmo diz, completamente cabralina — explica Bethânia. — Caetano foi quem me apresentou Clarice (no programa, ele canta com a irmã músicas inspiradas no livro “A hora da estrela”, que Bethânia interpretou no espetáculo de mesmo nome nos anos 1980). Mautner traria um olhar diferente, o olhar de sua geração, sobre Castro Alves (juntos, eles cantam “Negro blues”). E Paulinho Pinheiro fez “Sagarana” (com João de Aquino), trabalhou com Tom numa época em que eles estudaram muito Guimarães Rosa, “Matita perê”.

PROJETO DE DISCO COM SAMBAS DA MANGUEIRA

Em meio à música e a declamações de poesia e prosa, o programa se sustenta sobre uma conversa ao mesmo tempo informativa e informal, recheada de curiosidades e histórias divertidas. Bethânia adorou saber, por Costa e Silva, que o apelido de Castro Alves era Cecéu. Pinheiro diz que “Águas de março” é uma canção que só foi possível porque Tom mergulhou no universo de Rosa.

— Chico conta que João Cabral escreveu uma dedicatória para ele: “A Chico Buarque, que não sei quem é” — conta Bethânia, lembrando, entre risos, a personalidade dura do poeta. — Tenho certeza que João Cabral odiava que dissessem os poemas dele. Ele os considerava resolvidos depois que ele terminava de escrever, qualquer coisa que viesse depois era excesso. Tem uma frase dele que o professor Alberto lembra que explica isso: “Saio de meu poema como quem lava as mãos”.

Um programa voltado para a prosa e a poesia, tendo a canção como elemento fundamental, é algo totalmente afinado à obra de Bethânia. Sobretudo a partir do encontro com o autor e diretor Fauzi Arap, no show “Comigo me desavim” (1967).

— Esse cruzamento de poesia e música é criação do Fauzi, sou aluna dele. Ele descobriu a pólvora pra mim. Desde criança, queria o teatro, a poesia, a música. Caetano foi me guiando, ele tinha disciplina. Mas eu sou geminiana, queria tudo ao mesmo tempo. E quero até hoje. Então esse formato do Fauzi me deu isso.

A popularização do texto do livro — prosa ou poesia — pela canção (ou pela TV, como Bethânia procura agora) também fascina a cantora. Ela conta um recente episódio que ilustra exatamente a força da música como veículo.

— Gravei há poucos dias uma participação no DVD “Quintal do Pagodinho”. Zeca sempre se disse fã do “Drama — Luz da noite” (disco de Bethânia de 1973). No dia da gravação, quis homenageá-lo dizendo o texto do Bigode (o diretor Luiz Carlos Lacerda) da introdução de “Essse cara”. No meio, Zeca tirou o microfone de minha mão e seguiu declamando: “Arrasto os móveis, incenso”.

A ideia é que o programa continue no ano que vem (“Temos muitos poetas para fazer, como Manuel Bandeira”, afirma a diretora), mas não há nada confirmado. Entre os projetos de Bethânia, está também a produção de um disco de Arlindo Cruz pelo selo Quitanda, que a cantora tem na Biscoito Fino, e um disco com alguns dos sambas da Mangueira que não ganharam a disputa deste ano, quando a cantora foi o enredo da escola:

— Tem Nelson Sargento, Leci Brandão, Tantinho… E os anônimos, claro, com sambas lindos. É uma forma de agradecer aos compositores.

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