Artista do Rio abraçam a causa dos estudantes que tomaram escolas estaduais

RIO – No fim do ano passado, alunos de cerca de 200 escolas estaduais de São Paulo ocuparam as unidades em protesto contra a “reorganização escolar” proposta pelo governador do estado, Geraldo Alckmin, que previa a extinção de 92 unidades. O movimento ganhou corpo e foi rapidamente apoiado por artistas — nomes como Chico Buarque, Arnaldo Antunes, Criolo, Emicida, Pitty, Metá Metá, Paulo Miklos, Zélia Duncan e Chico César se envolveram na briga dos estudantes, gravando música, organizando um “viradão cultural” ou fazendo apresentações gratuitas nas escolas.

No Rio, inspirados no movimento paulista, alunos de cerca de 60 instituições também estão ocupando escolas estaduais em greve há cerca de um mês. Mas o envolvimento da classe artística do mainstream ainda é tímido: foram poucos os que ofereceram até agora oficinas ou fizeram apresentações para os estudantes.

O envolvimento é maior entre artistas independentes: no mês passado, o Colégio Estadual Pedro Álvares Cabral, em Copacabana, recebeu os artistas Chico Chico, Ava Rocha, Letuce e Rubel para shows em uma “ocupação cultural” que durou um dia inteiro.

— Quem dera se na minha época de escola eu tivesse sido invadida por ocupações assim. Música, culinária, horta e tantos outros assuntos curiosos. Fiz o show um pouco tensa pois o ambiente escolar ainda me assombra, os fantasmas do bullying estão em todas as escolas, mas há também a turma que aproveita a situação inédita. Recebi uma mensagem de uma menina de 16 anos, depois, me elogiando muito pelo show da escola e perguntando se eu conhecia Patti Smith. Disse que minha voz lembrava a dela. Fiquei em suspensão — conta Letuce.

PROGRAMAÇÃO PARA O ANO LETIVO

Com apoio da direção da instituição — não são todas as unidades que apoiam as ocupações —, os alunos querem estender essa programação ao longo do ano letivo, para além do período de protestos.

— Estamos praticamente morando na escola desde o dia 4 de janeiro, passamos as férias todas lá, e ter uma “ocupação cultural” sempre foi uma de nossas pautas. A direção foi parceira, falamos com Qinho, e convidamos os artistas — conta o aluno Vinicius Monteiro, 17 anos, que pretende cursar Artes Cênicas.

Um dos organizadores da ocupação do Colégio Estadual Pedro Álvares Cabral, em Copacabana, Vinicius Monteiro já está em contato com o cineasta Silvio Tendler, que estudou na unidade; além dos cantores Jorge Mautner, Liniker e a banda Dônica, para se apresentarem na instituição:

— Achamos que fazer esse tipo de projeto é mostrar que queremos caminhos mais sensíveis para atravessar a crise pela qual estamos passando, desobstruindo as artérias da cidade, como falava o Chico Science. Nossa pauta é contra a Secretaria estadual de Educação, não contra a nossa escola. Começo a perceber que não precisamos mais convidar, os artistas estão começando a aparecer espontaneamente. As ocupações estão tomando um fôlego imenso.

OCUPAÇÃO CULTURAL NO MÉIER

Na próxima segunda-feira, o CEP 20.000 fará sua edição semanal no Colégio Estadual André Maurois, na Gávea. Na quinta-feira desta semana, haverá uma grande “ocupação cultural’’, a partir das 15h, no Colégio Estadual Visconde de Cairu, no Méier. A Cairu é uma das escolas que também já acrescentaram atividades culturais — entre oficinas, aulões e rodas de conversa — ao calendário do movimento dos alunos. O evento, chamado “Ocupação Ssex Bbox”, terá uma mesa sobre o tema “Gênero nas escolas” e uma apresentação da peça “Domínio do escuro”, cuja dramaturgia é criada a partir das memórias de idosos homossexuais.

Também começam a ser organizadas oficinas de poesia (colunista do GLOBO, o escritor e professor da PUC Fred Coelho vai ministrar aulão nas escolas); de HQ (com os quadrinistas Arnaldo Branco e Daniel Lafayette) e de maracatu (grupo Maracatumba). Outro grupo que aderiu foi o Digital Dubs, que fez um anúncio em sua página disponibilizando seu “paredão” para apresentações em escolas interessadas.

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