A outra viagem pelas letras de Patti Smith

RIO – No mundo pós-rock, dois homens sempre surgem como os pontos fortes da ligação da música popular com o cânone literário: Bob Dylan e Leonard Cohen. E ao lado deles, uma solitária mulher, Patti Smith, cantora e compositora revelada com “Horses” (1975), disco que deu bases poéticas e existenciais para o punk e todo o rock alternativo das décadas seguintes.

Depois de um pungente livro sobre sua relação de juventude com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, “Só garotos” (ganhador do National Book Award de não ficção em 2010), ela volta com “Linha M”: uma coleção de textos livres, com memórias e impressões de suas andanças pelo mundo, de sua família e das suas paixões literárias. Um livro ilustrado por polaroides (a maior parte tirada pela própria Patti), cujo processo de escrita ela descreve, em entrevista por telefone de Paris, como “uma viagem num trem mental”.

— Eu queria fazer algo que fosse menos estruturado do que “Só garotos”, e fui escrevendo o que me vinha à cabeça, ao longo de um ano e meio, dois anos. Tudo saiu na ordem em que está no livro, da maneira que foi acontecendo — conta a cantora de 69 anos, que logo no começo do livro fala de uma viagem à Guiana Francesa, em 1978, ao lado do marido, o guitarrista Fred “Sonic” Smith (falecido em 1994). — E nós só não seguimos direto para o Brasil porque naquela ocasião nem eu, nem Fred, tínhamos cartão de crédito, tampouco dinheiro para chegar aí. Até conseguimos um visto, mas no fim não foi possível ir. Era nosso sonho ver a natureza e a floresta tropical, ter uma experiência com o grande rio (Amazonas). Mais tarde na minha vida (em 2006, no Tim Festival), eu enfim visitei o país, me apresentei aí, percorri suas cidades. Não é sempre que dá para realizar nossos sonhos… e aquelas nossas fotos pequenas que aparecem no livro, aliás, são dos nossos vistos brasileiros.

Entre relatos de suas visitas aos túmulos de Jean Genet, Sylvia Plath e Arthur Rimbaud, e um encontro com Paul Bowles em Tânger, Patti Smith ainda discorre, em “Linha M”, sobre o impacto provocado nela pela obra do chileno Roberto Bolaño (1953-2003).

— Eu adoro literatura e tenho lido livros desde muito pequena. Para mim, eles são algumas das coisas mais preciosas que a humanidade criou. Mas não encontrei tantos escritores assim ao longo da minha vida. Tive a sorte de conhecer os beats: William Burroughs, Allen Ginsberg, Gregory Corso… eles foram meus professores e amigos. Mas acho que mais importante do que conhecê-los pessoalmente é conhecê-los por intermédio de seus livros — diz ela, admitindo que, se tivesse a chance de encontrar pessoalmente apenas um escritor, esse seria Bolaño. — Ele era mais jovem do que eu e um grande gênio, além de ter uma energia maravilhosa. Infelizmente, ele morreu pouco antes de lançar a sua obra-prima, “2666”. Foi uma grande perda para a literatura e para nós, mas por sorte temos ainda o seu grande e prolífico trabalho. Eu tinha muito o que aprender com o Bolãno. Um de seus amigos me disse que ele gostava muito de ouvir “Horses” enquanto estava escrevendo. Foi uma coisa muito boa de se saber.

E por falar em “Horses”, no ano passado Patti Smith foi responsável por momentos de grande comoção em festivais de música no Hemisfério Norte, graças ao show em que recriou, com a sua banda, o repertório do clássico disco, no aniversário de 40 anos de seu lançamento. Canções como “Gloria” (de Van Morrrison, que ela abre com os versos “Jesus morreu pelos pecados de alguém não pelos meus”), “Redondo beach” e “Free money” ainda trouxeram arrepios às espinhas de uma plateia em que se espalhavam pessoas de idades variadas.

— Eu ainda me sentia muito conectada com as músicas de “Horses”, adoro tocá-las para as pessoas. E gosto de, em seguida, tocar outras músicas que são celebratórias, como “People have the power” e “Because the night” — revela Patti. — Esse disco tem uma unidade, ele reúne todas as minhas esperanças e minhas projeções da juventude. Os jovens na plateia se energizam com as músicas e, assim, me energizam de volta. É uma alegria, e em certas noites eu choro. Algo que eu realmente não esperava que acontecesse mais.

A promessa da cantora é de, um dia, trazer o show de “Horses” ao Brasil. Enquanto isso, ela apresenta “Linha M” em uma série de palestras intitulada “Eighteen stations” e prepara um livro de poemas e um álbum de canções.

— Minha vida de escritora é bem simples. Sou uma pessoa disciplinada, e mesmo quando estou na estrada com a minha banda de rock levo uma vida espartana, num ônibus, junto com nove caras — confessa. — Quando chegamos em alguma cidade, fazemos nossas refeições juntos, tocamos juntos e juntos voltamos para o ônibus. Em “Linha M”, eu queria compartilhar com o leitor um pouco da minha vida, que pode ser um pouquinho excêntrica, mas tem essa disciplina, essa simplicidade… e também o seu encanto. É uma vida encantadora.

“Linha M”

Autor: Patti Smith.

Editora: Companhia das Letras.

Tradução: Claudio Carina.

Páginas: 216.

Preço: R$ 39,90.

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