A história da imprensa e suas inovações

RIO — Na quarta-feira, dia 4, o jornal espanhol “El País” marcará seu aniversário de 40 anos com uma edição de 300 páginas reunindo artigos sobre sua história. Esse material terá sido produzido em uma redação que acaba de passar por uma grande reforma, como parte de um processo de transformação do veículo em um meio “essencialmente digital”, como afirmou o diretor Antonio Caño em carta aberta divulgada em março. Olhar ao mesmo tempo para o passado e para o futuro tem sido um movimento comum a uma geração de veículos que, assim como o “El País”, surgiram nos anos 1970 e transformaram as técnicas de redação, o design e a postura política da imprensa europeia.

O italiano “La Repubblica” também completou 40 anos em 2016. As celebrações foram em janeiro e, dois meses depois, o Grupo L’Espresso, que controla o jornal, anunciou a fusão com o grupo que publica o “La Stampa”, um dos mais tradicionais veículos do país, fundado em 1867. Segundo e terceiro jornais mais lidos da Itália, “La Repubblica” e “La Stampa” continuarão a ser títulos independentes, mas farão parte de um conglomerado que almeja ser o maior na área de “informação impressa e digital”, como afirmaram em comunicado. Outro símbolo daquela geração de veículos europeus, o francês “Libération”, fundado em 1973, também busca superar os desafios da transição para o digital mantendo sua tradição política combativa.

INOVAÇÕES NO DESIGN E NA POLÍTICA

Diretor-adjunto do “El País”, o jornalista David Alandete diz que um dos objetivos das celebrações do aniversário é reafirmar “os princípios de defesa dos valores democráticos e da liberdade de imprensa” que estão na origem do jornal, fundado um ano depois da morte do general Francisco Franco, ditador do país de 1938 a 1973. Para Alandete, o investimento nos meios digitais reforça esses princípios. A reforma da redação, concluída há poucas semanas, foi pensada para valorizar a distribuição de informações nas plataformas digitais. A edição impressa passa a ser vista como “mais uma via de distribuição de informação”, em pé de igualdade com site, aplicativos para smartphones e redes sociais. Assim, o jornal também sedimenta sua presença nos países da América Latina, inclusive no Brasil, onde mantém uma edição em português desde 2013.

— Não pensamos mais em conteúdos específicos para o digital, porque consideramos que todo o público é “digital”. Não se pode mais publicar um texto na internet sem pensar em interatividade com o leitor — diz Alandete, por telefone, citando como exemplo a plataforma “El País Vídeo”, que já transmitiu ao vivo debates nas eleições espanholas e a visita recente do presidente americano Barack Obama a Cuba.

Diretor-fundador de outro importante jornal espanhol da época, “El Periódico de Catalunya”, criado em 1978, o jornalista Antonio Franco foi diretor-adjunto do “El País” no início dos anos 1980. Ele diz que a influência do “El País” se firmou tanto por sua postura política em momentos decisivos, como quando se opôs a uma tentativa de golpe de Estado em 1981, quanto pelos avanços técnicos que promoveu.

— Na Espanha, “El País” representou a entrada em cena da imprensa moderna, com design sério e cuidado tipográfico. Essa modernidade era mais acentuada do ponto de vida ideológico. Não havia em seu arquivo artigos coniventes com o franquismo. Era um jornal moderado, mas inequivocamente progressista — diz Franco, por e-mail. — Com isso, “El País” contribuiu para transformar muitas redações do continente.

Também fundado em 1976, o “La Repubblica” teve impacto semelhante na imprensa italiana. Segundo o pesquisador Paolo Mancini, coautor do livro “Comparando sistemas de mídia no mundo ocidental” (inédito no Brasil), o jornal “mudou completamente a rotina” jornalística no país. Foi o primeiro a mesclar “assuntos populares e intelectuais”, diz Mancini, investindo em opinião e análise para fazer frente à ascensão do noticiário televisivo.

Professor de Ciência Política na Universidade de Perugia, Mancini observa que “La Repubblica” adotou um posicionamento próprio, de esquerda, em um momento crucial da política italiana. Em 1978, quando o ex-primeiro-ministro Aldo Moro, da Democracia Cristã, foi sequestrado e assassinado pela organização radical Brigadas Vermelhas, o jornal manteve sua oposição tanto à Democracia Cristã quanto às Brigadas Vermelhas, diz Mancini.

— “La Repubblica” e “El País” ocuparam um campo de centro-esquerda na imprensa europeia, investindo em uma combinação de notícia e opinião — diz Mancini, ressaltando, porém, as dificuldades da imprensa italiana em geral com os novos meios. — A Itália está muito atrasada na transição para o digital.

Fundado três anos antes dos dois, o “Libération” teve uma trajetória particular. Surgiu sob a égide do filósofo Jean-Paul Sartre, que chegou a ser diretor de redação por um ano e aproximou o veículo das lutas sindicais e políticas da esquerda na época, diz a pesquisadora francesa Adeline Wrona, professora de comunicação na Universidade Paris-Sorbonne CELSA. O jornal recusava publicidade e nivelava os salários de jornalistas e demais funcionários. Também inovou na diagramação, valorizando grandes fotos, e nas manchetes incisivas e bem-humoradas.

Sartre saiu logo em 1974, mas o espírito do jornal se manteve. A partir dos anos 2000, porém, uma sequência de mudanças administrativas colocaram o jornal em xeque. Em 2015, foi adquirido pelo empresário franco-israelense Patrick Drahi, que planeja integrá-lo a um grupo de mídia com braços na França e em Israel. Além da difícil passagem para o digital, essa é uma das interrogações para o futuro do jornal, diz Adeline:

— O desafio do “Libération” é continuar a existir como jornal independente.

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