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Corte de vagas em março deve ter sido o maior para o mês desde 1992

Da redação | 15/04/2016 06:20

BRASÍLIA e SÃO PAULO – A acentuada crise econômica encerrou um ciclo de 16 anos seguidos de geração de empregos com carteira assinada nos meses de março. Segundo as projeções dos especialistas, o país perdeu no mês passado entre 80 mil e 135 mil postos formais, o que deverá ser a maior onda de demissões para o mês em 24 anos. Em 1992, os desligamentos atingiram 79 mil pessoas. Os números se referem ao Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). O Ministério do Trabalho e Previdência deve divulgar o número nos próximos dias. É mais um elemento de agravamento da crise no mercado de trabalho. Com as contratações paralisadas, o que estica o tempo de busca por uma vaga, uma horda de brasileiros está ficando sem proteção social: meio milhão de trabalhadores estão deixando de receber, mensalmente, o seguro-desemprego.

O universo de desempregados para o qual o auxílio do seguro-desemprego está cessando foi calculado com base na média de beneficiários no primeiro bimestre deste ano, segundo dados do ministério. O benefício varia entre três e cinco parcelas, de acordo com o tempo de serviço. Em relação ao mesmo período dos anos anteriores, o número de pedidos está caindo. Mas isso se deve a mudanças nas regras de acesso, que ficaram mais rigorosas em 2015, e ao recuo na rotatividade do mercado de trabalho, causado pela recessão, explicou o especialista Rodolfo Torelly, do site Trabalho Hoje.

— Os desempregados passarão mais tempo em casa porque está mais difícil conseguir emprego, com menos proteção social e impacto negativo na renda das famílias — afirmou Torelly, ex-diretor do Departamento de Emprego do ministério.

Diante do crescimento do desemprego, ao longo de 2015 o governo elevou os gastos com seguro-desemprego e abono dos R$ 55,6 bilhões previstos para R$ 59,8 bilhões. Os benefícios são arcados pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que está deficitário. Neste ano, a previsão de aportes do Tesouro Nacional no Fundo está em R$ 14 bilhões.

A expectativa de deterioração do mercado torna esta situação mais dramática. Torelly lembra que, nos últimos 12 meses, o país já perdeu mais de 1,8 milhão de postos com carteira assinada, número que deverá superar dois milhões em 2016. No ano passado, forram eliminados 1,5 milhão, segundo o Caged:

— Não há qualquer indicativo de melhoria na economia, e a tendência é de quedas seguidas. Isso vem acontecendo desde abril do ano passado.

A projeção do banco Fator é de um saldo negativo de 86,4 mil empregos em março. Já para a economista Ariana Zerbinatti, do Bradesco, serão cortados 135 mil postos. Ela explicou que as demissões em serviços e comércio devem se acentuar este ano. Já na indústria e na construção civil, a tendência é de acomodação. Esses setores já fizeram ajustes fortes.

Empresários afirmam que está difícil manter pessoal. Para eles, sem resgate mínimo da confiança é imprescindível. Controlador do Grupo Cosan, de açúcar e álcool, Rubens Ometto avalia que a criação de empregos virá com a normalização mínima das condições econômicas no país.

— É só a economia se reorganizar que o emprego ressurge. Os empresários voltam a ter confiança para investir, a população começa a ter mais confiança e então a economia se recupera — diz Ometto.

Ele defende menos intervencionismo do governo no mercado:

— O governo não pode interferir tanto na economia, não pode agir como um empresário. Precisa sim estimular a concorrência. Com o atual nível de juros as empresas não conseguem nem pagar suas dívidas e nem tomar crédito para fazer novos investimentos, o que inviabiliza a abertura de novas vagas.

Marco Stefanini, dono da Stefanini, empresa do setor de serviços de tecnologia da informação que emprega 21 mil trabalhadores (12 mil no país e o restante no exterior), avalia que para o país voltar a gerar novos empregos, de forma sustentável, são necessárias as reformas estruturais, como a da Previdência e a trabalhista:

— É preciso mais flexibilidade para negociações entre patrões e empregados. Combinando reformas estruturais, e reativando o investimento privado, com novas ofertas de concessões em infraestrutura, a consequência é a geração de empregos.

Flavio Rocha, controlador do grupo têxtil Guararapes e da rede varejista Riachuelo, acredita que uma mudança de governo seguida de um reordenamento na economia pode reverter o quadro atual. Embora não tenha havido demissão em suas empresas, que empregam 40 mil pessoas, Rocha diz que desacelerou o ritmo de abertura de lojas no ano passado, mas que diante do quadro persiste a necessidade de cortes e fechamento de estabelecimentos.

— O varejo está vivendo a pior crise de sua história. São milhares de lojas fechadas e milhões de desempregados.

ANALISTAS DEFENDEM REFORMAS

Para o economista Rafael Cagnin, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), haverá ainda redução de vagas nos setores de comércio e serviços, além do setor público.

— Acredito que todos os efeitos da recessão no mercado de trabalho ainda nem foram sentidos. Não há uma medida que possa ser decretada para solucionar o problema. Mas a normalização do quadro político, seguida da desaceleração da inflação, da redução do juro para oxigenar o setor produtivo podem ajudar.

José Pastore, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, diz que a geração sustentável de vagas exigirá profundas reformas nos atuais sistemas trabalhista, previdenciário e tributário.

—Só com reformas será possível instigar o investimento e ter uma retomada sustentável da geração de vagas.

As centrais sindicais admitem discutir reforma trabalhista, mas não neste momento de intensa turbulência política.

— Estamos dispostos a dialogar. Mas isso só pode acontecer quando a crise passar e houver um cenário de confiança. Caso contrário, uma reforma feita às pressas e sem conversa vai prejudicar o trabalhador — diz Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT).

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