Diretor de ‘2 filhos de Francisco’ faz o ‘Breaking bad’ brasileiro

RIO — Um homem contrata pessoas para fazer uma obra em seu apartamento. A obra fica um horror, e ele nunca mais encontra os responsáveis pelo serviço. Tempos depois, o apartamento é invadido pela polícia, que descobre grande quantidade de maconha escondida num teto falso. Sem conseguir se explicar, o homem é preso por tráfico. O que parece ficção aconteceu no interior de São Paulo. E vai virar série a partir desta semana, marcando a estreia do diretor Breno Silveira, de “2 filhos de Francisco”, na televisão.

— Olha, acho que descobri o “Breaking bad” brasileiro — diz Breno, sentado em sua sala no último andar da produtora Conspiração Filmes, em Botafogo. — É uma história surreal, mas, como a gente pode ver no Brasil agora, a realidade pode ser mais surpreendente do que a ficção.

Batizada de “1 contra todos”, a série estreia na sexta-feira, às 23h no Fox+, e no dia 20, na Fox, às 22h30m. Terá oito episódios, com roteiro de Breno, Thomas Stavros e Gustavo Baldoni. Mas a segunda temporada já está confirmada.

Desde “2 filhos…”, que levou 5,3 milhões de espectadores ao cinema em 2005 para ver a história de Zezé Di Camargo & Luciano, tornando-se um dos dez campeões de bilheteria do cinema brasileiro, Breno ouve e coleciona casos para futuros projetos cinematográficos. Em 2012, ele levou às telas “Gonzaga — de pai pra filho” (2012), sobre a relação de Gonzagão e Gonzaguinha. E seguiu pensando que “assuntos importantes deveriam estar no cinema”. Até que um dia, comentou o caso do “traficante” com Zico Góes, diretor da Fox. Saiu de lá com o projeto aprovado. Para a televisão.

— Começou para o cinema, só que hoje está muito complexo viabilizar cinema, em parte porque as pessoas só querem títulos comerciais, menos inteligentes, e parece que agora o cinema vai viver de “Batmans” e comédias. Ou então o filme é muito de nicho. Um filme médio com história boa você não encontra — diz.

Para o diretor, a indústria brasileira segue no ritmo da americana, que presencia a migração dos bons títulos e dos bons diretores do cinema para a TV. Seja na grade comum seja em serviços on demand.

— Há coisas que ainda quero contar na tela grande, mas a série abriu um leque gigantesco. É uma saída maravilhosa para diretores de cinema, onde está tudo engessado. Mudar roteiro e experimentar personagens é muito interessante.

TIRO, PORRADA, E… LÁGRIMAS

Sem o menor interesse por gêneros como ficção científica, comédias blockbuster ou fantasia, Silveira tampouco presumiria dirigir um thriller. Mas se empolgou com a história. Nela, o protagonista, Cadu (vivido por Julio Andrade, o Gonzaguinha de “Gonzaga”), declara-se inocente, mas finge ser mesmo traficante para encarar a vida no presídio enquanto aguarda o julgamento. Fissurado pelos dramas humanos, Breno insiste que “1 contra todos” vai muito além do viés policial. Apesar dos efeitos no melhor estilo “tiro, porrada e bomba”, ele diz que quer, sim, levar o espectador às lágrimas.

 

— O drama dele é lindo, o que a mulher dele faz, o que o filho faz. Como nos meus filmes, você não termina a série sem chorar. Eu não gosto de história de trama, gosto de personagem. E tenho um encanto por almas simples e brasileiras. Acredito neste personagem que parece não existir mais no Brasil — desabafa o diretor, que escolheu a música “Não existe amor em SP”, de Criolo, para a abertura da atração.

Acostumado com a morosidade do processo cinematográfico — ele levou sete anos para finalizar “Gonzaga” —, Breno conta que escreveu, dirigiu e finalizou “1 contra todos’ em um ano. Em novembro, já começa a rodar a segunda temporada.

— Na primeira temporada partimos de uma história real, mas sem compromisso. Fomos até onde a loucura permitia. E aí? O que tínhamos? Interessante é que o país não para de dar pano pra manga, então pegamos nossa realidade política e jogamos os episódios da segunda temporada para Brasília. Aí, vamos tratar do submundo das drogas ligado à política. Com certeza, minha decepção e minha tristeza estarão presentes — adianta o diretor.

DOIS FILMES A CAMINHO

Essa tal liberdade para experimentar no formato, conta ele, o fez refletir sobre sua própria forma de produzir no cinema:

— Eu sempre tive uma coisa meio endeusada com o cinema. Vivo até hoje de publicidade, então escolho os filmes para fazer e jogo tudo neles. Tenho uma entrega tão absurda que fico engessado com a minha própria criação. E essa liberdade me fez rever minha posição dura no set. Acho que fiquei mais leve.

Mesmo seduzido pelo mundo das séries de TV, Breno não se desgarrou do cinema. Em breve, filma “A espanhola”, sobre a vida da mãe de um amigo, e “O cangaceiro e a costureira”, superprodução de época protagonizada por mulheres.

— Esse mistura de linguagens só faz bem ao diretor e ao espectador — diz.

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